Por que você viaja?

IMG_9055.JPGFoi a pergunta feita pelo meu parceiro de remadas, num caiaque perto da ilha de Cat Ba, no norte do Vietnam. Diante do meu silêncio, ele insistiu “Rita, por que você viaja? Qual a sua razão para isso?”

Eu estava sentada na parte de trás e ele não conseguia ver meu rosto – meus olhos de um lado para o outro, tentando encontrar a resposta escondida em algum lugar do meu cérebro. Depois de mais uns minutos em silêncio eu respondi “Ótima pergunta! Eu não sei…”

Eu fui honesta. Nunca pensei ou busquei a razão pela qual eu viajo. Para mim, viajar sempre foi algo mais do que natural. Sempre achei que fosse o meu sangue espanhol, meio cigano. Eu cresci numa família que acha que a ideia de férias perfeitas é dirigir o máximo de quilômetros possíveis durante as férias, fossem 3 dias, 3 semanas, 3 meses ou 3 anos.

Nós continuamos remando, e eu continuei na busca pelo porquê. “Para conhecer novos lugares e culturas? Para ver paisagens diferentes? Para provar novas comidas? Ter novas experiências? Conhecer pessoas?”

“Eu não sei”, eu repeti em voz alta. E eu realmente não sabia.

Por muitas semanas essa pergunta ficou me perturbando. Comecei a perguntar para pessoas ao meu redor. Cada um com uma resposta diferente e eu ainda sem a minha. Até que um dia, enquanto dirigia entre paredões de calcário e observava a mudança de cores no céu antes do por do sol, a resposta veio: eu viajo porque viajar me faz viver o hoje. Porque viajar me mantem no presente.

 

Viajar me permite viver e focar no presente como nunca antes.

Quanto tempo eu gastei nesses meus 30+ anos pensando sobre o passado! Nas coisas que eu fiz ou disse, nas coisas que não fiz ou não disse; nas coisas que eu poderia ou deveria ter feito diferente.

Quanto tempo eu gastei pensando no futuro! O que eu vou fazer? Onde vou estar? Relacionamentos baseados em “deixa eu ver como você vai ser daqui a um tempo para poder decidir se vale mesmo a pena investir nessa relação” me fizeram perder tanto tempo presente. Sempre esperando por algo melhor, por um futuro que nunca chegou.

Nós tendemos a gastar nosso tempo pensando no passado e no futuro e acabamos por viver o presente como um ponto de transição entre o ontem e o amanhã. Não prestamos atenção ao que estamos fazendo agora porque não abraçamos o agora.

Viajando eu encontrei uma forma de viver o presente, um dia por vez.

As pessoas me perguntam como eu passo meus dias. Bem, eu acordo, tomo banho, decido o que vou comer de café da manhã e o que vou fazer com meu dia. Visitar atrações turísticas, trabalhar, escrever, andar sem rumo, ficar deitada na rede. Eu faço uma escolha e desfruto. Se decido trabalhar, eu sei que vou passar horas em frente do computador ao invés de explorar cavernas, cachoeiras, ou me locomover para o próximo destino. Eu decido e abraço minha escolha. Eu não me julgo se escolho fazer nada. Às vezes, “nada” é tudo o que preciso. Às vezes, o que preciso é me jogar na estrada, pegar um ônibus local que leva horas e mais horas para chegar no próximo destino.

Claro que eu penso sobre o futuro. Para onde essa experiência vai me levar? O que eu vou fazer com todas essas coisas que tenho aprendido sobre o mundo, e sobre eu mesma? A questão é que eu não foco apenas no futuro. Viajar me força a tomar decisões hoje, agora, no presente.

Você pode estar pensando “Ah, mas é fácil falar quando você está vivendo desse jeito, conhecendo lugares e pessoas diferentes a cada dia. Fácil quando você não tem que estar num escritório de segunda a sexta.” É verdade que eu não tenho uma vida de escritório, mas isso não significa que não tenho uma rotina e meus rituais diários. Não significa que eu não questiono minhas escolhas ou tenho dúvidas sobre o caminho que escolhi. Não significa que eu não tenho responsabilidades para comigo mesma ou com os outros. Mas o meu processo de tomada de decisão está baseado no presente.

Quando encontro pessoas novas, eu me permito apreciar e aproveitar as curtas ou longas conversas. É provável que eu nunca veja essas pessoas, por isso eu me permito estar presente e apreciar o momento.

O mesmo se aplica às mudanças na paisagem. Nenhuma foto é capaz de capturar a beleza de se observar as mudanças de relevo, cores e aromas de um lugar ao outro. De montanhas para vales, de rios para o mar, da brisa gelada ao calor sem brisa. Se não me permitir sentir tudo isso, como poderei falar sobre isso?

Por que eu viajo?

Para viver o presente; para no futuro contar histórias sobre o meu passado.

E você? Por que você viaja?

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2 thoughts on “Por que você viaja?

  1. Que lindo! Suas palavras me emocionaram e consegui sentir toda a atmosfera que vc tentou nos passar, por alguns minutos estava ali ao seu lado no caiaque! É exatamente assim que nos sentimos! Para viver o presente e no futuro contar historias do meu passado

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